Nas ruas de Paris, um espelho para o Brasil
Os protestos franceses contra o custo de vida revelam uma crise global de distribuição que o Brasil ainda teima em enfrentar de forma estrutural

Enquanto o Brasil vive uma semana eleitoral decisiva, a França registrou 272 presos em um único dia de protestos contra o custo de vida. A imagem pode parecer distante, mas é um espelho. O que explode nas ruas de Paris é a mesma tensão que pulsa silenciosamente nas periferias brasileiras: a distância crescente entre o que a economia produz e o que a maioria da população consegue acessar.
A inflação de alimentos segue sendo um dos maiores vetores de instabilidade social no mundo desenvolvido e em desenvolvimento. No Brasil, segundo dados do IBGE, o grupo alimentação e bebidas foi um dos principais responsáveis pela pressão inflacionária sobre as famílias de baixa renda nos últimos anos. Enquanto a cesta básica consome fatia desproporcional do salário de quem ganha menos, o debate eleitoral brasileiro raramente aprofunda os mecanismos estruturais que produzem essa desigualdade: concentração fundiária, financeirização dos alimentos e ausência de política industrial robusta.
O caso francês também expõe a falácia de que crescimento do PIB se traduz automaticamente em bem-estar. A França é a sétima maior economia do mundo, mas seus trabalhadores saem às ruas porque os salários não acompanham os preços. O Brasil reproduz essa lógica com crueldade ampliada: somos a nona economia global e, ao mesmo tempo, figuramos entre os países mais desiguais do planeta, segundo o Coeficiente de Gini medido pelo Banco Mundial. Crescer sem distribuir é apenas acumular tensão social.
No contexto geopolítico, os protestos europeus sinalizam algo que o Sul Global precisa ler com atenção: a ordem econômica internacional que nos foi imposta como modelo está em crise em seu próprio centro. A austeridade fiscal, a desregulamentação e a abertura indiscriminada ao capital financeiro não entregaram prosperidade nem lá nem aqui. O que entregaram foi precarização, erosão de direitos e instabilidade política — da qual o Brasil conhece bem o sabor.
A semana eleitoral brasileira, portanto, não decide apenas nomes. Decide se o país vai construir alguma resposta soberana a essa crise global de distribuição ou se vai se contentar em reproduzir receitas que já falharam. Políticas como o reajuste real do salário mínimo, a recomposição do orçamento da saúde e da educação e o fortalecimento de mecanismos de controle sobre preços de alimentos básicos são respostas concretas, não retórica. As ruas de Paris lembram que quando essas respostas tardam, quem paga a conta é sempre a mesma gente.
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