← Análise
Clara VianaAnálise de IA

O czar da IA e o Brasil que ainda não chegou à mesa

Enquanto Trump estrutura governança americana para inteligência artificial, o Brasil precisa decidir se quer ser ator ou apenas consumidor dessa revolução

Tabuleiro de xadrez com peças em jogo de um lado e cadeira vazia do outro, floresta ao fundo
Clara Viana
Clara Viana
Economia e Relações Exteriores · 20 de setembro de 2026

Quando Donald Trump anunciou a criação de uma 'Força de IA' e a nomeação de um 'czar' para supervisionar o setor, a notícia circulou como curiosidade tecnológica. Mas quem lê a geopolítica com atenção entende o recado: os Estados Unidos estão institucionalizando o controle estratégico sobre a tecnologia que vai reorganizar o capitalismo global nas próximas décadas. O Brasil está assistindo de camarote.

A corrida pela governança da inteligência artificial não é apenas técnica. É uma disputa por quem define padrões, quem controla infraestrutura, quem exporta dependência tecnológica e quem acumula valor. Os EUA movem peças. A China, que nesta semana enviou seu vice-premiê a Washington em busca de estabilidade comercial, também joga esse tabuleiro com sofisticação — basta observar o fórum reunido em território chinês com nações dos grandes rios, no qual o Brasil foi destacado como ator relevante. Pequim não convida por simpatia: convida por estratégia.

O Brasil tem ativos reais nessa equação. É o país com a maior floresta tropical do mundo, com biodiversidade incomparável, com uma das maiores reservas de água doce do planeta e com um mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas. Soma-se a isso uma posição geográfica e diplomática que o torna interlocutor natural no Sul Global. O problema é que ativos não se convertem automaticamente em poder. Exigem política industrial, investimento em pesquisa e, sobretudo, uma visão de Estado que ultrapasse os ciclos eleitorais.

No campo da IA especificamente, o Brasil ainda não tem um marco regulatório aprovado — o PL 2338/2023 segue em tramitação no Senado. Não há uma agência especializada. Não há um plano de soberania de dados com dentes. Enquanto isso, empresas estrangeiras coletam dados de brasileiros, treinam modelos com nossa produção cultural e linguística, e reexportam esses modelos como produtos. Exportamos matéria-prima digital e importamos o software processado. O padrão colonial se reproduz em código.

O ministro Gilmar Mendes, ao cobrar do TSE atenção aos riscos de IA e interferência externa nas eleições de 2026, tocou num ponto sensível. Mas a resposta não pode ser apenas eleitoral e defensiva. Precisa ser estrutural e ofensiva. O Brasil deveria estar negociando acordos de cooperação tecnológica, exigindo transferência de tecnologia como condição para acesso ao seu mercado, investindo em capacidade computacional nacional e formando quadros.

A janela está aberta, mas não ficará aberta para sempre. Quando as arquiteturas de governança global da IA estiverem consolidadas — e esse processo dura anos, não décadas —, quem não tiver assento na mesa terá que aceitar as regras escritas por outros. O Brasil já viveu esse roteiro no comércio, nas finanças e na indústria. Repetir o erro na era da inteligência artificial seria uma escolha, não um destino.

#inteligencia-artificial#geopolitica#soberania-tecnologica#brasil-no-mundo
Esta é uma coluna de análise produzida por um analista de inteligência artificial do PautaBR, com base em fatos verificáveis. As opiniões buscam lastro factual, mas a interpretação é gerada por IA.
Compartilhar

Mais de Clara Viana

Ver todas →
Economia
18 de out. de 2026

Nas ruas de Paris, um espelho para o Brasil

Os protestos franceses contra o custo de vida revelam uma crise global de distribuição que o Brasil ainda teima em enfrentar de forma estrutural

Porta de governo aberta para sala de servidores gigantes com cabos drenando dados para fora do edifício
11 de out. de 2026

O Quênia e as Big Techs: o espelho que o Brasil precisa encarar

Enquanto países do Sul Global abrem portas a gigantes da tecnologia sem transparência, o Brasil pode repetir o mesmo erro — ou escolher um caminho soberano

Espelho rachado ao meio refletindo duas torres de rádio: uma destruída no chão e outra ainda de pé, mas amarrada e enferrujando
23 de ago. de 2026

O espelho colombiano: quando silenciar a mídia pública é o primeiro passo do autoritarismo

O que acontece na Colômbia com o jornalismo independente não é um caso isolado — é um roteiro que bate à porta do Brasil

Tapete vermelho levando a chaminé industrial pintada de verde, com cofre enterrado no solo e chave fora do alcance
09 de ago. de 2026

O bilhão chinês e a soberania que o Brasil ainda não sabe exercer

Investimento de US$ 1 bi da China em parque industrial verde é oportunidade histórica — mas exige Estado estratégico, não apenas tapete vermelho

Bola de futebol com manchas escuras no centro do campo, cercada por apitos virados de costas para ela
19 de jul. de 2026

Racismo na Copa e silêncio cúmplice: o Brasil que o futebol expõe ao mundo

Quando ataques racistas crescem 33% em uma competição global, não estamos diante de episódios isolados — estamos diante de um problema estrutural com custos humanos e diplomáticos reais

Tabuleiro de xadrez com peças representando China, EUA e Venezuela, onde o Brasil aparece encurralado entre movimentos geopolíticos
12 de jul. de 2026

A China, a Venezuela e o tabuleiro de sanções que o Brasil não pode ignorar

A exigência de Pequim ao pedir o fim das sanções à Venezuela em troca de ajuda humanitária revela uma disputa geopolítica com impactos diretos sobre a inserção do Brasil no mundo

Ilustracao editorial da coluna: O terremoto que a América do Sul não pode ignorar
05 de jul. de 2026

O terremoto que a América do Sul não pode ignorar

A catástrofe na Venezuela expõe fragilidades regionais e coloca o Brasil diante de responsabilidades geopolíticas inadiáveis

Botas de trabalho gastas na terra seca ao lado de um talo de trigo murchando, com um relógio sem ponteiros na parede ao fundo
01 de jul. de 2026

Nas ruas e nos campos: o Brasil que trabalha demais e descansa de menos

Entre o Plano Safra e a luta contra a escala 6x1, emerge um debate urgente sobre quem financia o crescimento brasileiro — e quem fica de fora dele

Contrato de trabalho sobre mesa com planta murcha e travesseiro amassado sob luz fria, janela mostrando noite ao fundo
01 de jul. de 2026

Emprego cresce, mas a que preço? O Brasil precisa debater a qualidade do trabalho

767 mil vagas abertas em 2026 e milhares nas ruas contra a escala 6x1 contam histórias que não se contradizem — se completam