O czar da IA e o Brasil que ainda não chegou à mesa
Enquanto Trump estrutura governança americana para inteligência artificial, o Brasil precisa decidir se quer ser ator ou apenas consumidor dessa revolução

Quando Donald Trump anunciou a criação de uma 'Força de IA' e a nomeação de um 'czar' para supervisionar o setor, a notícia circulou como curiosidade tecnológica. Mas quem lê a geopolítica com atenção entende o recado: os Estados Unidos estão institucionalizando o controle estratégico sobre a tecnologia que vai reorganizar o capitalismo global nas próximas décadas. O Brasil está assistindo de camarote.
A corrida pela governança da inteligência artificial não é apenas técnica. É uma disputa por quem define padrões, quem controla infraestrutura, quem exporta dependência tecnológica e quem acumula valor. Os EUA movem peças. A China, que nesta semana enviou seu vice-premiê a Washington em busca de estabilidade comercial, também joga esse tabuleiro com sofisticação — basta observar o fórum reunido em território chinês com nações dos grandes rios, no qual o Brasil foi destacado como ator relevante. Pequim não convida por simpatia: convida por estratégia.
O Brasil tem ativos reais nessa equação. É o país com a maior floresta tropical do mundo, com biodiversidade incomparável, com uma das maiores reservas de água doce do planeta e com um mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas. Soma-se a isso uma posição geográfica e diplomática que o torna interlocutor natural no Sul Global. O problema é que ativos não se convertem automaticamente em poder. Exigem política industrial, investimento em pesquisa e, sobretudo, uma visão de Estado que ultrapasse os ciclos eleitorais.
No campo da IA especificamente, o Brasil ainda não tem um marco regulatório aprovado — o PL 2338/2023 segue em tramitação no Senado. Não há uma agência especializada. Não há um plano de soberania de dados com dentes. Enquanto isso, empresas estrangeiras coletam dados de brasileiros, treinam modelos com nossa produção cultural e linguística, e reexportam esses modelos como produtos. Exportamos matéria-prima digital e importamos o software processado. O padrão colonial se reproduz em código.
O ministro Gilmar Mendes, ao cobrar do TSE atenção aos riscos de IA e interferência externa nas eleições de 2026, tocou num ponto sensível. Mas a resposta não pode ser apenas eleitoral e defensiva. Precisa ser estrutural e ofensiva. O Brasil deveria estar negociando acordos de cooperação tecnológica, exigindo transferência de tecnologia como condição para acesso ao seu mercado, investindo em capacidade computacional nacional e formando quadros.
A janela está aberta, mas não ficará aberta para sempre. Quando as arquiteturas de governança global da IA estiverem consolidadas — e esse processo dura anos, não décadas —, quem não tiver assento na mesa terá que aceitar as regras escritas por outros. O Brasil já viveu esse roteiro no comércio, nas finanças e na indústria. Repetir o erro na era da inteligência artificial seria uma escolha, não um destino.
Mais de Clara Viana
Ver todas →Nas ruas de Paris, um espelho para o Brasil
Os protestos franceses contra o custo de vida revelam uma crise global de distribuição que o Brasil ainda teima em enfrentar de forma estrutural
O Quênia e as Big Techs: o espelho que o Brasil precisa encarar
Enquanto países do Sul Global abrem portas a gigantes da tecnologia sem transparência, o Brasil pode repetir o mesmo erro — ou escolher um caminho soberano
O espelho colombiano: quando silenciar a mídia pública é o primeiro passo do autoritarismo
O que acontece na Colômbia com o jornalismo independente não é um caso isolado — é um roteiro que bate à porta do Brasil
O bilhão chinês e a soberania que o Brasil ainda não sabe exercer
Investimento de US$ 1 bi da China em parque industrial verde é oportunidade histórica — mas exige Estado estratégico, não apenas tapete vermelho
Racismo na Copa e silêncio cúmplice: o Brasil que o futebol expõe ao mundo
Quando ataques racistas crescem 33% em uma competição global, não estamos diante de episódios isolados — estamos diante de um problema estrutural com custos humanos e diplomáticos reais
A China, a Venezuela e o tabuleiro de sanções que o Brasil não pode ignorar
A exigência de Pequim ao pedir o fim das sanções à Venezuela em troca de ajuda humanitária revela uma disputa geopolítica com impactos diretos sobre a inserção do Brasil no mundo
O terremoto que a América do Sul não pode ignorar
A catástrofe na Venezuela expõe fragilidades regionais e coloca o Brasil diante de responsabilidades geopolíticas inadiáveis
Nas ruas e nos campos: o Brasil que trabalha demais e descansa de menos
Entre o Plano Safra e a luta contra a escala 6x1, emerge um debate urgente sobre quem financia o crescimento brasileiro — e quem fica de fora dele
Emprego cresce, mas a que preço? O Brasil precisa debater a qualidade do trabalho
767 mil vagas abertas em 2026 e milhares nas ruas contra a escala 6x1 contam histórias que não se contradizem — se completam








