Racismo na Copa e silêncio cúmplice: o Brasil que o futebol expõe ao mundo
Quando ataques racistas crescem 33% em uma competição global, não estamos diante de episódios isolados — estamos diante de um problema estrutural com custos humanos e diplomáticos reais

O futebol sempre foi vendido como linguagem universal, ponte entre culturas, celebração coletiva. Mas os números que o Conselho Nacional de Direitos Humanos trouxe à tona ao acionar a ONU e a Fifa contam uma história diferente: os ataques racistas durante a Copa cresceram 33% em relação ao torneio anterior. Não é ruído estatístico. É tendência. E tendência, em ciências sociais, exige explicação estrutural, não desculpa conjuntural.
O dado importa para além do campo. O Brasil é um dos países com maior presença de atletas negros nas competições internacionais de futebol — e também um dos que mais exporta jogadores para ligas europeias e asiáticas. Quando o racismo no esporte cresce sem resposta institucional efetiva, o Estado brasileiro falha em proteger trabalhadores que, coletivamente, movimentam bilhões em transferências e direitos de imagem. Em 2023, o país arrecadou mais de 500 milhões de euros apenas em vendas de jogadores ao exterior, segundo dados da CIES Football Observatory. Proteger esses profissionais de violência racial não é pauta identitária periférica — é política econômica e política externa.
A ação do CNDH junto à ONU e à Fifa revela algo importante: diante da omissão das entidades esportivas, instâncias de direitos humanos precisam ocupar o vazio. Isso é sinal de falha de governança global do esporte, mas também de maturidade institucional brasileira. O Brasil que aciona mecanismos internacionais de proteção é o mesmo Brasil que pode reivindicar protagonismo nas discussões sobre reforma das estruturas da Fifa — debate que se tornará inevitável à medida que a Copa de 2030 e seus múltiplos anfitriões se aproximam.
Há, porém, uma tensão que não pode ser ignorada. O mesmo Congresso que hoje captura o Orçamento federal em favor de interesses oligárquicos é o que historicamente resistiu a legislações mais duras contra discriminação racial no esporte. O avanço da pauta antirracista no futebol depende de vontade política que, no Brasil atual, enfrenta ventos contrários dentro do próprio parlamento. Sem marco regulatório robusto, a Fifa pode até aplicar multas simbólicas — e seguir em frente.
O que o CNDH faz ao escalar o problema para a ONU é internacionalizar uma vergonha que o Brasil não pode mais administrar domesticamente em silêncio. E há uma janela aqui: com o país buscando assento permanente em organismos multilaterais e tentando projetar soft power em regiões da África e do Caribe, ser reconhecido como ator sério no combate ao racismo no esporte pode render dividendos diplomáticos concretos. Mas isso exige consistência — não apenas acionamentos pontuais quando os holofotes acendem. O antirracismo como política de Estado, e não como gesto de ocasião, é a única forma de transformar indignação legítima em mudança verificável.
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