A China, a Venezuela e o tabuleiro de sanções que o Brasil não pode ignorar
A exigência de Pequim ao pedir o fim das sanções à Venezuela em troca de ajuda humanitária revela uma disputa geopolítica com impactos diretos sobre a inserção do Brasil no mundo

Quando a China condicionou sua participação na reconstrução pós-terremoto da Venezuela ao fim das sanções norte-americanas, o gesto passou despercebido por boa parte da mídia brasileira. Foi um erro de atenção. O que Pequim fez foi menos um gesto humanitário do que um movimento de xadrez geopolítico com consequências que chegam diretamente ao Brasil.
A Venezuela enfrenta uma crise humanitária crônica agravada por desastres naturais. Os Estados Unidos mantêm sanções ao regime de Nicolás Maduro desde 2019, com restrições ao setor petrolífero que, segundo o próprio governo venezuelano, comprometem receitas e importações essenciais. A China, principal credor e parceiro comercial de Caracas, escolheu esse momento de vulnerabilidade para formalizar uma exigência diplomática a Washington. O recado é claro: Pequim não vai financiar a estabilização de um país no quintal dos EUA sem contrapartidas políticas.
Para o Brasil, isso não é um espetáculo distante. Somos a maior economia da América do Sul e compartilhamos mais de 2.000 quilômetros de fronteira com a Venezuela. A instabilidade venezuelana já produziu mais de 500 mil refugiados em território brasileiro, segundo dados do ACNUR, concentrados especialmente em Roraima. Qualquer aprofundamento da crise — seja por falta de reconstrução, seja por escalada diplomática entre Washington e Pequim — amplifica pressões migratórias e humanitárias que o Brasil absorve diretamente.
Há também uma dimensão econômica menos óbvia. O Brasil tem interesse concreto na retomada das relações comerciais com a Venezuela, um mercado historicamente relevante para exportações industriais brasileiras, hoje praticamente paralisadas. A normalização venezuelana, dependente em parte da flexibilização das sanções americanas, passa pelo tipo de mediação que o Brasil tenta exercer no âmbito do Celac e das negociações com a oposição venezuelana. Mas essa mediação fica mais difícil quando a disputa sino-americana transforma Caracas em peão de uma rivalidade global.
O governo Lula apostou na ideia de que o Brasil pode falar com todos — Washington, Pequim, Moscou, Caracas. É uma postura soberana e legítima. Mas ela exige capacidade de leitura rápida de movimentos como o que a China acaba de fazer. Quando Pequim usa uma tragédia natural para pressionar os EUA, está testando também os limites da autonomia dos países do Sul Global. O Brasil precisa decidir se vai apenas observar esse jogo ou se vai construir, com urgência, uma posição ativa que proteja seus interesses regionais e preserve o espaço humanitário que a Venezuela, com toda sua complexidade política, continua sendo. Omissão, nesse tabuleiro, também é uma escolha.
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