Emprego cresce, mas a que preço? O Brasil precisa debater a qualidade do trabalho
767 mil vagas abertas em 2026 e milhares nas ruas contra a escala 6x1 contam histórias que não se contradizem — se completam

O Brasil abriu 767 mil novos postos de trabalho formais em 2026, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O número é expressivo e será celebrado, com razão, como sinal de recuperação do mercado de trabalho. Mas enquanto essa estatística circulava, milhares de pessoas tomavam a Avenida Paulista para exigir o fim da escala 6x1 e melhores condições laborais. As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Não é coincidência — é uma tensão estrutural que o debate econômico brasileiro insiste em ignorar.
Criar emprego formal é necessário. Não é suficiente. A formalização sem a discussão sobre jornada, remuneração e saúde do trabalhador transforma o contrato de carteira assinada em pouco mais do que uma senha para a exaustão legalizada. A escala 6x1 — seis dias de trabalho para um de descanso — é praticada majoritariamente no comércio e nos serviços, setores que concentram trabalhadores negros, jovens e de baixa renda. Falar sobre o fim dessa escala é falar, portanto, sobre desigualdade racial e de classe, não apenas sobre horas de folga.
A Proposta de Emenda Constitucional que busca alterar esse regime aguarda votação no Senado sob pressão direta das ruas. O movimento que foi à Paulista não surgiu do nada: é a expressão organizada de uma geração que entrou no mercado de trabalho digital, comparou realidades através de telas e decidiu que trabalhar mais não é virtude quando o resultado é adoecimento e ausência da própria vida. A pauta é legítima e tem respaldo em estudos de saúde ocupacional que associam jornadas excessivas a doenças cardiovasculares, burnout e acidentes de trabalho.
O contexto macroeconômico importa aqui. O Lula lançou o Plano Safra com R$ 97,7 bilhões voltados à agricultura familiar, reforçando uma agenda de soberania alimentar que merece reconhecimento. Mas a soberania que o país também precisa construir é a soberania do tempo do trabalhador urbano — aquele que abastece mercados, opera caixas, entrega pacotes e mantém a economia de serviços funcionando sete dias por semana.
Há um argumento de que reduzir a jornada encarece a folha e desacelera a geração de empregos. É um argumento que precisa ser levado a sério — e confrontado com dados. Países com jornadas mais curtas não são necessariamente países com mais desemprego. A produtividade por hora trabalhada no Brasil é historicamente baixa, o que sugere que o problema não é trabalhar menos, mas trabalhar melhor.
O Caged mostra um Brasil que emprega. A Paulista mostra um Brasil que exige dignidade no emprego. Não escolher entre essas duas imagens é a tarefa política e econômica mais urgente do momento. O Senado que escuta o mercado precisa aprender a escutar também o asfalto.
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