O terremoto que a América do Sul não pode ignorar
A catástrofe na Venezuela expõe fragilidades regionais e coloca o Brasil diante de responsabilidades geopolíticas inadiáveis

A Venezuela enfrenta uma das maiores tragédias de sua história recente. Terremotos sucessivos deixaram 2.595 mortos e 50 mil desaparecidos, segundo dados em circulação nas últimas horas. Qualquer que seja o número final, a escala humana já é incontornável, e o silêncio diplomático do continente é ensurdecedor.
O Brasil ocupa uma posição singular nesse contexto. É a maior economia da América do Sul, possui fronteira terrestre com a Venezuela de mais de 2.000 quilômetros e já absorveu, desde 2015, mais de 600 mil venezuelanos em fluxo migratório documentado pela Operação Acolhida. A catástrofe atual tem potencial de reacender esse movimento em proporções ainda maiores, desta vez impulsionado não apenas pela crise política e econômica crônica do país vizinho, mas por destruição física de infraestrutura, moradia e meios de subsistência.
Do ponto de vista geopolítico, a resposta brasileira a esse desastre é um teste de liderança regional. O governo Lula tem apostado na diplomacia ativa e na recuperação do protagonismo do Brasil em fóruns multilaterais, da COP à reforma do Conselho de Segurança da ONU. Mas liderança se prova nos momentos de crise concreta, não apenas nos discursos de alto nível. A ausência de uma iniciativa coordenada do Brasil junto à Unasul, ao Mercosul ou diretamente ao governo Maduro, em caráter humanitário e apartidário, seria uma contradição estratégica grave.
Internamente, o impacto econômico de um novo fluxo migratório em larga escala também precisa ser levado a sério, sem alarmismo, mas com planejamento. A Operação Acolhida demonstrou que a integração é possível e que migrantes venezolanos contribuem para o mercado de trabalho brasileiro, especialmente em setores com déficit de mão de obra. O Papa Leão XIV cobrou da Europa proteção aos migrantes nesta semana. O mesmo imperativo moral e prático se aplica ao continente sul-americano.
Há ainda uma dimensão climática que não pode ser ignorada. O Brasil vive simultaneamente alertas de chuvas intensas no Nordeste e Norte, emitidos pelo Inmet, e uma frente fria histórica que derrubou temperaturas a -8°C no Sul. O país está sob pressão climática em múltiplas frentes enquanto precisa gerenciar uma potencial crise humanitária transfronteiriça. A capacidade do Estado brasileiro de responder a tudo isso ao mesmo tempo é limitada, e isso exige priorização política clara, não improviso.
O que está em jogo não é apenas solidariedade, embora ela seja necessária. É a arquitetura de segurança regional, a credibilidade da política externa brasileira e a coerência entre o discurso progressista de proteção aos vulneráveis e a prática concreta de quem detém poder e recursos para agir. O Brasil pode liderar. A questão é se escolherá fazê-lo.
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