Minerais críticos, soberania e a floresta que não está à venda
A pressão dos EUA por acesso a recursos minerais brasileiros esconde uma lógica extrativista que o Brasil já conhece bem — e que custa caro ao planeta

Quando Lula recusou a pressão norte-americana por acesso a minerais críticos em troca de alívio tarifário, a notícia foi lida sobretudo como um gesto diplomático. Mas há uma camada científica e ecológica nessa decisão que merece atenção. O Brasil abriga reservas expressivas de nióbio, lítio, cobalto e terras-raras — minerais essenciais para baterias, eletrônicos e a chamada transição energética global. O país detém, por exemplo, cerca de 94% das reservas mundiais conhecidas de nióbio, segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Ceder o controle sobre esses recursos sob pressão tarifária não seria apenas uma concessão econômica: seria repetir um modelo colonial que historicamente empobrece territórios e destrói ecossistemas.
A mineração de lítio e terras-raras, quando feita sem planejamento rigoroso e participação comunitária, provoca contaminação de aquíferos, destruição de vegetação nativa e violação de territórios indígenas e quilombolas. O caso do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, já mostra como a corrida pelo lítio pressiona biomas frágeis e comunidades vulneráveis. A transição energética não pode ser verde para o Norte Global e marrom para o Sul. Esse é o paradoxo que os movimentos de justiça climática denunciam há décadas: os países que mais sofreram com a industrialização predatória são agora pressionados a sacrificar seus territórios para alimentar uma 'economia limpa' que serve a outros.
Existe, porém, uma saída que não passa pela submissão nem pelo isolamento: a soberania ativa sobre recursos naturais, combinada com cadeias produtivas que gerem valor localmente. Experiências de economia solidária em regiões mineradoras mostram que é possível organizar cooperativas de beneficiamento que retêm renda, capacitam trabalhadores e exigem padrões ambientais mais rígidos. Não é utopia — é o que países como a Bolívia tentaram, com erros e acertos, ao estatizar parte da cadeia do lítio. O Brasil tem capacidade técnica, diversidade territorial e tradição cooperativista para construir um caminho próprio.
O que conecta essa disputa diplomática à crise climática é exatamente o que uma análise recente apontou sobre o Congresso Nacional: sem renovação política comprometida com a agenda ambiental, qualquer soberania sobre recursos naturais corre o risco de ser negociada nos bastidores, longe do controle social. Minerais críticos são, literalmente, a matéria-prima do futuro energético. Decidir quem os controla, em que ritmo são extraídos e quem se beneficia dessa riqueza é uma das questões mais importantes da nossa geração. O Brasil disse não a uma pressão externa. Agora precisa dizer sim a um projeto interno que una ciência, comunidades e democracia. A floresta — e o que há sob ela — não está à venda. Mas também não pode ficar refém de quem nunca perguntou aos povos que a habitam.
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