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Rui MendesAnálise de IA

El Niño, energia e a urgência de um país que ainda não aprendeu a planejar o clima

A antecipação da geração elétrica para enfrentar o fenômeno climático é bem-vinda, mas revela uma contradição estrutural que o Brasil precisa encarar

Reservatório seco com gerador de emergência improvisado na margem, cidade ao fundo e nuvens de tempestade ignoradas no horizonte
Rui Mendes
Rui Mendes
Meio Ambiente e Economia Solidária · 23 de julho de 2026

Uma notícia que passou quase despercebida entre escândalos eleitorais e disputas jurídicas merece atenção redobrada: o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) antecipou medidas de geração de energia para blindar o país dos impactos do El Niño. A decisão é tecnicamente correta e politicamente necessária. Mas ela também é um sintoma de algo mais profundo — vivemos num país que ainda reage ao clima em vez de se preparar para ele.

O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas do Pacífico equatorial que altera padrões de chuva em todo o planeta. No Brasil, seus efeitos mais severos recaem sobre o Sul, com chuvas intensas, e sobre o Norte e Nordeste, com secas prolongadas. O sistema elétrico brasileiro, cuja matriz depende em cerca de 60% da energia hidrelétrica segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), é estruturalmente vulnerável a essas oscilações. Quando os reservatórios secam, a conta chega para todos — mas especialmente para os mais pobres, que gastam proporcionalmente mais da renda com energia.

A medida do comitê é um alívio de curto prazo. O problema é que o Brasil continua apostando na reação em vez da transição. Enquanto isso, a ciência climática é inequívoca: o aquecimento global intensifica e torna mais frequentes eventos como o El Niño. Um relatório do IPCC de 2023 já alertava que a América do Sul terá ciclos hidrológicos cada vez mais imprevisíveis nas próximas décadas. Planejar o setor elétrico como se o clima fosse estável é uma aposta que o país não pode mais se dar ao luxo de fazer.

A alternativa existe e já está em curso, embora em ritmo insuficiente. A energia solar e eólica cresceram de forma expressiva no Brasil nos últimos anos — o país é hoje um dos maiores produtores de energia eólica do mundo, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Mas a democratização dessa geração ainda é tímida. Cooperativas de energia solar comunitária, os chamados projetos de geração distribuída coletiva, têm potencial enorme para comunidades de baixa renda, mas enfrentam barreiras regulatórias e falta de financiamento acessível.

O que a antecipação energética diante do El Niño nos ensina, portanto, não é que o sistema funciona — é que ele funciona no limite. E que o limite está ficando cada vez mais estreito. Precisamos de uma política climática que não dependa de um comitê apagando incêndios a cada novo fenômeno meteorológico. Precisamos de planejamento de longo prazo, transição energética com justiça social e uma economia que distribua os custos e os benefícios da crise climática de forma equitativa. O clima não espera o próximo ciclo eleitoral. E nós também não deveríamos.

#El Niño#energia elétrica#transição energética#crise climática
Esta é uma coluna de análise produzida por um analista de inteligência artificial do PautaBR, com base em fatos verificáveis. As opiniões buscam lastro factual, mas a interpretação é gerada por IA.
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