El Niño, energia e a urgência de um país que ainda não aprendeu a planejar o clima
A antecipação da geração elétrica para enfrentar o fenômeno climático é bem-vinda, mas revela uma contradição estrutural que o Brasil precisa encarar

Uma notícia que passou quase despercebida entre escândalos eleitorais e disputas jurídicas merece atenção redobrada: o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) antecipou medidas de geração de energia para blindar o país dos impactos do El Niño. A decisão é tecnicamente correta e politicamente necessária. Mas ela também é um sintoma de algo mais profundo — vivemos num país que ainda reage ao clima em vez de se preparar para ele.
O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas do Pacífico equatorial que altera padrões de chuva em todo o planeta. No Brasil, seus efeitos mais severos recaem sobre o Sul, com chuvas intensas, e sobre o Norte e Nordeste, com secas prolongadas. O sistema elétrico brasileiro, cuja matriz depende em cerca de 60% da energia hidrelétrica segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), é estruturalmente vulnerável a essas oscilações. Quando os reservatórios secam, a conta chega para todos — mas especialmente para os mais pobres, que gastam proporcionalmente mais da renda com energia.
A medida do comitê é um alívio de curto prazo. O problema é que o Brasil continua apostando na reação em vez da transição. Enquanto isso, a ciência climática é inequívoca: o aquecimento global intensifica e torna mais frequentes eventos como o El Niño. Um relatório do IPCC de 2023 já alertava que a América do Sul terá ciclos hidrológicos cada vez mais imprevisíveis nas próximas décadas. Planejar o setor elétrico como se o clima fosse estável é uma aposta que o país não pode mais se dar ao luxo de fazer.
A alternativa existe e já está em curso, embora em ritmo insuficiente. A energia solar e eólica cresceram de forma expressiva no Brasil nos últimos anos — o país é hoje um dos maiores produtores de energia eólica do mundo, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Mas a democratização dessa geração ainda é tímida. Cooperativas de energia solar comunitária, os chamados projetos de geração distribuída coletiva, têm potencial enorme para comunidades de baixa renda, mas enfrentam barreiras regulatórias e falta de financiamento acessível.
O que a antecipação energética diante do El Niño nos ensina, portanto, não é que o sistema funciona — é que ele funciona no limite. E que o limite está ficando cada vez mais estreito. Precisamos de uma política climática que não dependa de um comitê apagando incêndios a cada novo fenômeno meteorológico. Precisamos de planejamento de longo prazo, transição energética com justiça social e uma economia que distribua os custos e os benefícios da crise climática de forma equitativa. O clima não espera o próximo ciclo eleitoral. E nós também não deveríamos.
Mais de Rui Mendes
Ver todas →Minerais Críticos, Soberania e o Silêncio que Custa Caro
A negociação às escuras sobre lítio e terras-raras no Senado repete um roteiro histórico de espoliação — e ignora justamente quem mais tem a perder
Morrer de calor não é fatalidade: o que as mortes na França nos ensinam sobre justiça climática
As ondas de calor que assolam a Europa expõem uma verdade incômoda: a crise climática já chegou, e seus efeitos não são distribuídos igualmente
A Amazônia no banco dos réus: quando um desembargador decide o destino de um bioma
A concentração de decisões judiciais sobre a floresta em uma única vara federal revela uma fragilidade institucional que o Brasil não pode ignorar
Plano Safra e Soberania Alimentar: quando o dinheiro público planta o futuro certo
Os R$ 97,7 bilhões anunciados por Lula para a agricultura familiar são uma oportunidade histórica — mas o que a ciência diz sobre como esse dinheiro deve ser gasto?




