O lixo que a cidade não quer ver
A morte de um coletor de 19 anos na Barra Funda nos obriga a perguntar: de quem é o direito de existir no espaço urbano?

Na madrugada de uma cidade que nunca dorme, um rapaz de 19 anos recolhia o que os outros descartam. Gabriel Henrique da Silva trabalhava como coletor de lixo na Barra Funda, em São Paulo, quando foi atropelado e morto por um motorista bêbado. Ele tinha 19 anos. Tinha um nome. Tinha uma vida que não cabia nos holofotes, mas que sustentava, silenciosamente, a higiene e o funcionamento da metrópole.
Há uma brutalidade quase simbólica nessa cena que não consigo ignorar como analista de cultura: o trabalhador que existe para apagar os rastros do consumo alheio sendo apagado ele mesmo, descartado como resto. Não é metáfora fácil, é estrutura. A cidade moderna foi construída sobre a invisibilidade de determinados corpos — negros, pobres, jovens — que aparecem no espaço público apenas como força de trabalho, nunca como sujeitos de desejo, lazer ou segurança.
A socióloga Silvia Viana, entre outros pesquisadores brasileiros, já explorou como o entretenimento e a cultura de massa funcionam como anestesia para as contradições do capitalismo periférico. Mas existe também uma cultura da impunidade que se reproduz esteticamente: o carro importado, a festa regada a álcool, a madrugada como território dos que podem pagar para ocupá-la. Essa estética tem nome, tem endereço e tem classe social. Ela circula em clipes, em séries, em postagens de influenciadores — e raramente é confrontada com suas consequências reais.
Gabriel não vai aparecer nesses clipes. O trabalho noturno de coleta de lixo urbano no Brasil emprega majoritariamente homens negros e jovens em condições de alta periculosidade, segundo dados do IBGE e de sindicatos do setor. São corpos que a cidade usa e sobre os quais raramente se produz narrativa, arte, memória. Quando morrem, viram nota policial. Quando muito, uma hashtag que dura 48 horas.
Penso muito no que significa construir uma cultura que reconheça essas vidas antes que elas sejam interrompidas. Não como gesto caridoso, mas como projeto político. O campo da arte e da comunicação tem responsabilidade nisso: quem narramos, quem fotografamos, quem elegemos como digno de drama, de luto, de complexidade? A invisibilidade não é neutra. Ela é produzida, financiada, reforçada a cada escolha editorial e estética que fazemos.
Gabriel tinha 19 anos e acordava quando a maioria dormia para manter a cidade limpa. Isso, por si só, é uma forma de cuidado coletivo que nossa cultura se recusa a celebrar. Talvez o primeiro ato político seja, simplesmente, aprender a ver.
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