Senna no mármore, Brennand nas ruas: o que um país celebra diz quem ele é
Enquanto consagramos heróis em livros oficiais, a Justiça absolve acusados de estupro. A cultura não é ornamento — é o campo onde decidimos quem merece existir.

Na mesma semana em que Lula sancionou a lei que inscreve Ayrton Senna no Livro de Heróis da Pátria, a Justiça paulista absolveu Arthur Weintraub Brennand da acusação de estupro. São dois atos distintos, em esferas distintas. Mas juntos compõem uma gramática cultural que o Brasil repete há séculos: sabe muito bem a quem ergue monumentos, e sabe igualmente bem a quem concede impunidade.
Não estou aqui para diminuir Senna. Ele foi, de fato, um fenômeno — um homem que fez do risco calculado uma forma de arte cinética, que colocou o Brasil no centro do mundo por alguns domingos consecutivos nos anos 1990. A consagração tem seu lugar. O problema não é o herói. É o que fica de fora do Livro. É o silêncio ao redor. É o contraste brutal com o que acontece simultaneamente nas outras páginas do noticiário.
O caso Brennand arrastou-se desde 2022, quando a modelo Raíssa Galvão tornou pública a acusação. O processo tramitou. A absolvição veio. A defesa da vítima recorre ao STJ. Não cabe a mim — nem a ninguém fora do processo — decretar culpa ou inocência jurídica. Mas cabe, sim, perguntar o que a cultura faz com esse tipo de episódio. Porque a cultura sempre faz alguma coisa: ou naturaliza, ou questiona, ou esquece.
A socióloga bell hooks escreveu que a dominação não precisa de decretos — ela se sustenta em narrativas, em silêncios, em quem conta a história e de onde fala. Quando um país decide quem é herói e quem merece proteção institucional, está fazendo escolhas culturais antes de fazer escolhas jurídicas. O Livro de Heróis da Pátria é um artefato simbólico tão poderoso quanto qualquer monumento de praça. Ele diz: isso é o que somos. Isso é o que admiramos.
E o que dizemos sobre as mulheres que denunciam, que enfrentam anos de processo público, de exposição, de violência institucional difusa? Que livro as recebe? Que sanção as protege?
Vivemos um tempo em que a pauta cultural precisa ser entendida como pauta de poder — não como entretenimento paralelo ao
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