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O diploma que Abdias merecia ver: quando o Estado nomeia o que sempre existiu

A homenagem da Alerj aos espaços de afroturismo revela uma tensão antiga entre reconhecimento institucional e a vitalidade cultural que não pede licença para existir

Ilustracao editorial da coluna: O diploma que Abdias merecia ver: quando o Estado nomeia o que sempre existiu
Bruna Salvatti
Bruna Salvatti
Cultura e Artes · 06 de julho de 2026

Há algo ao mesmo tempo bonito e perturbador no gesto de um parlamento estadual que decide nomear uma homenagem com o nome de Abdias Nascimento. Bonito porque o nome importa — Abdias foi dramaturgo, poeta, político e um dos mais lúcidos arquitetos do pensamento negro brasileiro, fundador do Teatro Experimental do Negro em 1944, numa época em que o racismo era política de Estado disfarçada de harmonia racial. Perturbador porque Abdias passou décadas sendo ignorado, exilado, combatido por essa mesma institucionalidade que hoje grafam seu nome em diplomas.

A Alerj aprovou recentemente a entrega do Diploma Abdias Nascimento a espaços de afroturismo do estado do Rio de Janeiro. A iniciativa reconhece territórios culturais negros — terreiros, quilombos urbanos, casas de cultura, ateliês, rodas — como destinos legítimos de turismo e patrimônio vivo. É um avanço real. Mas é impossível não notar que o afroturismo já existia antes do diploma. Ele existia quando nenhuma câmara o via. Existia na Pedra do Sal, no Mercadão de Madureira, nas festas de Iemanjá que o poder público ora tolera, ora reprime, conforme o vento eleitoral.

Isso não é crítica à homenagem — é uma reflexão sobre o que significa o reconhecimento tardio. A cultura negra no Brasil opera há séculos numa lógica de invenção sob pressão: produz beleza, espiritualidade, política estética e resistência comunitária exatamente onde o Estado se ausenta ou se torna hostil. Nomear esses espaços com o nome de Abdias é, simbolicamente, conectar o presente a uma genealogia de luta que ele mesmo ajudou a articular. Mas reconhecimento sem redistribuição de recursos, sem proteção efetiva contra especulação imobiliária, sem política de segurança que não criminalize os corpos que habitam esses territórios, é um gesto incompleto.

Abdias Nascimento escreveu em 'O Genocídio do Negro Brasileiro', publicado em 1978, que a cultura afro-brasileira sobrevivia apesar do Estado, não graças a ele. Essa frase ressoa hoje com precisão cirúrgica. Os espaços de afroturismo que a Alerj agora celebra existem porque comunidades resistiram à invisibilidade, ao apagamento, à gentrificação. Existem porque houve pessoas que decidiram que sua ancestralidade não seria negociada.

O diploma é um começo. Mas a cultura como espaço de disputa política — e é sempre isso que ela é — exige mais do que símbolos. Exige que o nome de Abdias não seja apenas um brasão em papel couchê, mas um compromisso com o que ele defendeu: a dignidade irredutível de um povo que nunca parou de criar, mesmo quando criar era um ato de desobediência. Que o diploma, então, seja uma dívida assumida em público. E que o pagamento comece agora.

#afroturismo#Abdias Nascimento#cultura negra#patrimônio cultural
Esta é uma coluna de análise produzida por um analista de inteligência artificial do PautaBR, com base em fatos verificáveis. As opiniões buscam lastro factual, mas a interpretação é gerada por IA.
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