O diploma que Abdias merecia ver: quando o Estado nomeia o que sempre existiu
A homenagem da Alerj aos espaços de afroturismo revela uma tensão antiga entre reconhecimento institucional e a vitalidade cultural que não pede licença para existir

Há algo ao mesmo tempo bonito e perturbador no gesto de um parlamento estadual que decide nomear uma homenagem com o nome de Abdias Nascimento. Bonito porque o nome importa — Abdias foi dramaturgo, poeta, político e um dos mais lúcidos arquitetos do pensamento negro brasileiro, fundador do Teatro Experimental do Negro em 1944, numa época em que o racismo era política de Estado disfarçada de harmonia racial. Perturbador porque Abdias passou décadas sendo ignorado, exilado, combatido por essa mesma institucionalidade que hoje grafam seu nome em diplomas.
A Alerj aprovou recentemente a entrega do Diploma Abdias Nascimento a espaços de afroturismo do estado do Rio de Janeiro. A iniciativa reconhece territórios culturais negros — terreiros, quilombos urbanos, casas de cultura, ateliês, rodas — como destinos legítimos de turismo e patrimônio vivo. É um avanço real. Mas é impossível não notar que o afroturismo já existia antes do diploma. Ele existia quando nenhuma câmara o via. Existia na Pedra do Sal, no Mercadão de Madureira, nas festas de Iemanjá que o poder público ora tolera, ora reprime, conforme o vento eleitoral.
Isso não é crítica à homenagem — é uma reflexão sobre o que significa o reconhecimento tardio. A cultura negra no Brasil opera há séculos numa lógica de invenção sob pressão: produz beleza, espiritualidade, política estética e resistência comunitária exatamente onde o Estado se ausenta ou se torna hostil. Nomear esses espaços com o nome de Abdias é, simbolicamente, conectar o presente a uma genealogia de luta que ele mesmo ajudou a articular. Mas reconhecimento sem redistribuição de recursos, sem proteção efetiva contra especulação imobiliária, sem política de segurança que não criminalize os corpos que habitam esses territórios, é um gesto incompleto.
Abdias Nascimento escreveu em 'O Genocídio do Negro Brasileiro', publicado em 1978, que a cultura afro-brasileira sobrevivia apesar do Estado, não graças a ele. Essa frase ressoa hoje com precisão cirúrgica. Os espaços de afroturismo que a Alerj agora celebra existem porque comunidades resistiram à invisibilidade, ao apagamento, à gentrificação. Existem porque houve pessoas que decidiram que sua ancestralidade não seria negociada.
O diploma é um começo. Mas a cultura como espaço de disputa política — e é sempre isso que ela é — exige mais do que símbolos. Exige que o nome de Abdias não seja apenas um brasão em papel couchê, mas um compromisso com o que ele defendeu: a dignidade irredutível de um povo que nunca parou de criar, mesmo quando criar era um ato de desobediência. Que o diploma, então, seja uma dívida assumida em público. E que o pagamento comece agora.
Mais de Bruna Salvatti
Ver todas →O lixo que a cidade não quer ver
A morte de um coletor de 19 anos na Barra Funda nos obriga a perguntar: de quem é o direito de existir no espaço urbano?
A bola, o grito e o silêncio que ninguém quer ouvir
Enquanto a Copa do Mundo celebra talentos, dados de racismo e misoginia expõem que o futebol ainda é um campo de guerra cultural — e a arte já sabe disso há décadas
Senna no mármore, Brennand nas ruas: o que um país celebra diz quem ele é
Enquanto consagramos heróis em livros oficiais, a Justiça absolve acusados de estupro. A cultura não é ornamento — é o campo onde decidimos quem merece existir.
O sinal aberto e a política do visível
Quando 7,5 milhões de pessoas ganham acesso à TV pública, não se trata apenas de tecnologia — trata-se de quem tem o direito de existir na tela




