O sinal aberto e a política do visível
Quando 7,5 milhões de pessoas ganham acesso à TV pública, não se trata apenas de tecnologia — trata-se de quem tem o direito de existir na tela

Há uma frase que carrego desde que comecei a estudar cultura como campo de poder: ver-se representado é um ato político. Não é metáfora. É literalmente a diferença entre pertencer a um mundo ou ser apagada dele. Foi pensando nisso que a notícia sobre o programa Brasil Digital — que levou TV pública a 7,5 milhões de novos espectadores em 2026 — me parou no meio da semana com uma força que poucas manchetes conseguem.
A televisão pública brasileira nunca foi um produto neutro. Desde os tempos da Fundação Padre Anchieta até a construção da TV Brasil, ela carregou a tensão entre o estado como financiador e o povo como destinatário real. O que o Brasil Digital faz ao ampliar esse sinal é, em essência, redistribuir o direito ao olhar. Sete vírgula cinco milhões de pessoas que antes estavam fora desse circuito agora podem acessar uma programação que, ao menos em teoria, não está inteiramente capturada pela lógica do mercado publicitário.
Isso importa porque o mercado tem memória seletiva. A televisão comercial brasileira levou décadas para colocar uma mulher negra como protagonista de novela das nove. Ainda hoje personagens LGBTQIA+ aparecem majoritariamente como alívio cômico ou tragédia moral. O que não se mostra não existe para quem depende da tela como janela de mundo — e no Brasil, a TV ainda é a principal fonte de informação e entretenimento para famílias de baixa renda, segundo dados históricos do IBGE.
A notícia sobre os R$ 270 milhões investidos pela Petrobras em cultura, com foco em diversidade e regiões periféricas, aparece na mesma semana e não é coincidência temática: são dois movimentos que, juntos, desenham uma política cultural de expansão do visível. Imperfeita, atravessada por contradições institucionais, sujeita a descontinuidades eleitorais — mas real.
O que me preocupa, e preciso dizer com honestidade, é a fragilidade estrutural desses avanços. Programas de inclusão digital e televisiva dependem de vontade política e orçamento federal. Uma troca de governo pode desfazer em meses o que levou anos para ser construído. A história da cultura pública no Brasil é um cemitério de projetos interrompidos.
Penso nas 7,5 milhões de pessoas que agora têm um sinal novo chegando em casa. Quero que elas vejam a si mesmas nessa tela. Quero que vejam a Amazônia como território de vida, não de extração. Que vejam mulheres que não pedem licença para existir. Que vejam o Brasil que ainda estamos inventando. A arte não salva sozinha — mas sem ela, a política vira só administração do presente. E o futuro, como sempre, começa pelo que somos capazes de imaginar juntas.
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