A derrota nas urnas e o peso da história: quando o radicalismo encontra seu limite
Os envolvidos no 8 de Janeiro fracassaram nas eleições. Hannah Arendt já nos ensinava o que acontece quando a violência tenta substituir a política.

Há uma cena que a história repete com insistência quase pedagógica: movimentos que apostam na ruptura violenta da ordem democrática costumam colher, cedo ou tarde, o repúdio das mesmas sociedades que tentaram mobilizar. Os dados das eleições municipais de 2024 no Brasil confirmaram essa tendência com clareza difícil de ignorar. Candidatos diretamente ligados aos atos de 8 de janeiro de 2023 — quando apoiadores de Bolsonaro invadiram e destruíram as sedes dos três poderes em Brasília — fracassaram nas urnas e não conquistaram vagas no Congresso. Não é uma curiosidade eleitoral. É um sinal que merece leitura mais profunda.
Hannah Arendt, em 'Sobre a Violência', publicado em 1970, estabeleceu uma distinção que permanece iluminadora: violência e poder não são a mesma coisa, e frequentemente se opõem. Para Arendt, o poder genuíno nasce do agir conjunto, do acordo entre pessoas que constroem algo em comum. A violência, ao contrário, é instrumental e destrutiva — pode destruir o poder, mas jamais criá-lo. Quando um grupo quebra vidraças e vandaliza obras de arte públicas, pode gerar efeito de intimidação momentâneo, mas não constrói legitimidade. E sem legitimidade, a política democrática não sobrevive.
O que as urnas de 2024 sugeriram é que uma parcela significativa do eleitorado brasileiro — incluindo eleitores conservadores — traçou uma linha entre oposição legítima e ruptura institucional. Isso não significa que o campo progressista venceu ou que o bolsonarismo está derrotado: Flávio Bolsonaro avança para um segundo turno disputado, e o próprio PT enfrenta desafios sérios de reconstrução de base. Mas os protagonistas do 8 de Janeiro especificamente foram punidos nas urnas, o que é politicamente relevante.
Há aqui também uma lição sobre memória coletiva. Sociedades que conseguem nomear e rejeitar episódios de violência política criam anticorpos institucionais. A República de Weimar, tragicamente, não soube fazê-lo nos anos 1930 — e o resultado é a maior catástrofe política do século XX. Não estamos diante de um paralelo automático, e seria irresponsável traçar equivalências fáceis. Mas o exercício comparativo serve para lembrar que a indiferença à violência simbólica e institucional tem custos históricos mensuráveis.
O voto, nesse sentido, é também um ato de memória. Quando eleitores recusam candidatos associados a ataques à democracia, estão dizendo algo sobre o tipo de comunidade política que desejam habitar. É um gesto modesto, imperfeito, atravessado por mil outras variáveis — candidatos locais, obras, promessas, rejeições pessoais. Mas é um gesto. E gestos, acumulados, formam tendências. A história raramente se move em linha reta, mas ela se move. E às vezes, nas entrelinhas de uma planilha eleitoral, é possível ouvir o eco de lições que deveríamos ter aprendido há muito mais tempo.
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