O diploma que chegou tarde demais — e a memória que não pode esperar
A homenagem póstuma a Stuart Angel pela UFRJ é um gesto necessário. Mas ela nos obriga a perguntar: por que as democracias demoram tanto para ajustar as contas com seus próprios crimes?

Na semana em que a UFRJ entregou postumamente o diploma a Stuart Angel — militante morto pela ditadura militar brasileira em 1971, aos 25 anos, após ser arrastado por um jipe com uma mangueira de escapamento na boca — é impossível não sentir o peso específico de cinquenta e dois anos de silêncio institucional. Cinquenta e dois anos. Uma vida inteira. A de alguém que nunca pôde ter a sua.
O gesto da universidade é genuíno e merece reconhecimento. Mas ele também é um espelho desconfortável. Hannah Arendt, em 'Origens do Totalitarismo', argumentou que o maior crime dos regimes autoritários não é apenas a violência física — é a tentativa sistemática de apagar a existência do outro, tornar o indivíduo um não-ser, sem nome, sem história, sem diploma. O Estado que mata Stuart Angel em 1971 e o Estado que o homenageia em 2025 são, formalmente, o mesmo Estado. Essa continuidade institucional não é detalhe: é o nó central de qualquer projeto sério de justiça de transição.
O Brasil, como se sabe, nunca julgou seus torturadores. A Lei de Anistia de 1979, interpretada de forma a proteger agentes do regime, criou o que a historiadora Heloísa Starling chama de 'democracia com entulho autoritário'. Não é coincidência que vivamos, décadas depois, em um país onde a disputa sobre o significado do golpe de 1964 ainda contamina o debate público — e onde um ex-presidente precisa explicar o paradeiro de armas que deveriam estar sob custódia do Exército. O passado não resolvido sangra no presente.
Há uma lição filosófica aqui que vai além do Brasil. Paul Ricoeur, em 'A Memória, a História, o Esquecimento', distingue entre o esquecimento como apagamento e a memória como trabalho. Lembrar, nesse sentido, não é nostalgia: é um ato político ativo, uma recusa a deixar que o crime se normalize pelo simples transcurso do tempo. O diploma de Stuart é, nessa chave, menos uma celebração do que uma acusação — gentil, acadêmica, mas acusação.
Enquanto o Irã enterra Khamenei entre multidões controladas e o Peru debate a legitimidade de uma eleição marcada por irregularidades, fica evidente que a tensão entre memória e poder não é exclusividade brasileira. É a condição de qualquer sociedade que ainda não terminou de decidir o que quer ser. O Brasil de 2025 está, à sua maneira, ainda nessa negociação. Stuart Angel não pode participar dela. Mas o diploma chega como um lembrete de que algumas dívidas não prescrevem — e que a democracia, quando honesta, insiste em cobrá-las, mesmo com meio século de atraso.
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