Riscos se Flávio Bolsonaro for eleito
A menos de três semanas do 2º turno, a oposição aponta riscos de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Organizamos em seis campos (ecologia, social, democracia, justiça, soberania e economia): em cada risco, o que ele disse com data e ocasião, o que está documentado, quem teria de decidir e onde termina a conta.
A conta que decide tudo: 41, 49, 54 e 308
Marcas: 41 senadores aprovam indicados ao STF; 49 senadores e 308 deputados mudam a Constituição; 54 senadores removem um ministro do STF. Em 302, a soma da direita com o PSD na Câmara.
O poder de um presidente eleito depende do Congresso que toma posse em fevereiro de 2027. O PL terá 28 senadores e 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde 1988. A bancada bolsonarista no Senado deve ter de 44 a 45 dos 81 senadores, segundo estimativas publicadas na imprensa, e a direita soma cerca de 280 votos na Câmara.
Os números que contam: 41 votos no Senado aprovam indicados ao STF; 49 senadores e 308 deputados são necessários para mudar a Constituição; 54 senadores removem um ministro do STF. Com cerca de 45 senadores, a direita passa dos 41, chega perto dos 49 e fica a nove dos 54.
Na Câmara, o PL precisa do centrão para chegar a 308. Esse bloco, porém, encolheu: PSD, PP, União Brasil e MDB, com Podemos e Republicanos, terão 234 deputados em 2027, contra 253 hoje. A soma PL + PP + Republicanos + União + Novo chega a 259 e, com o PSD, a 302. Soma de bancadas não é voto garantido: os partidos votam divididos e o centrão negocia caso a caso.
Ecologia
Clima, licenciamento, terras indígenas e praias
- 1. “Efeitos cíclicos”: o candidato que não atribui os extremos ao ser humano
- 2. Licença por decurso de prazo: o silêncio do órgão vira autorização
- 3. “Nenhuma dessas reservas será demarcada”, e mineração em terra indígena
- 4. PEC das Praias: Flávio relatou o fim dos terrenos de marinha como bem da União
“Efeitos cíclicos”: o candidato que não atribui os extremos ao ser humano
“Eu acredito que são efeitos cíclicos.”
“[...] eu não acho que isso tenha a ver diretamente só com a influência do ser humano no ambiente.”
Perguntado sobre um artigo seu de 2019 e se mudou de opinião, ele não respondeu se acredita em aquecimento global. Citou o marco legal do saneamento como a principal forma de cuidar do ambiente.
Um governo que trata secas, chuvas e calor extremos como ciclo natural tende a dar menos prioridade a metas climáticas e à adaptação das cidades, num país que já convive com os dois.
Licença por decurso de prazo: o silêncio do órgão vira autorização
“[...] sem ideologizar os licenciamentos ambientais como acontece hoje, que acabam inviabilizando qualquer tipo de progresso.”
“A questão ambiental é importante, porque muitas vezes está mais relacionada aos crimes ambientais.”
Na mesma fala, defendeu exploração responsável de recursos naturais no Pará e combate à extração ilegal de madeira e ouro com fiscalização.
Se o órgão ambiental não responder no prazo e a licença sair sozinha, obras e mineração podem avançar sem análise técnica, sobretudo onde os órgãos têm pouca capacidade de resposta.
“Nenhuma dessas reservas será demarcada”, e mineração em terra indígena
“Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada porque a vocação do Mato Grosso é a produção.”
“Demarcou, tá demarcado, e não demarcou, acabou.”
“Não pode ser mais a caneta de um juiz que vai decidir qual é esse futuro.”
Em Sinop ele citou pedidos da Funai que somariam 2,2 milhões de hectares e disse ser preciso “respeitar a autonomia dos povos indígenas”. Em Campo Grande defendeu que indígenas possam plantar, criar gado e explorar minérios, com royalties.
Parar as demarcações e abrir terras à mineração e à pecuária aumenta a pressão sobre florestas e povos, e pode acirrar conflitos fundiários.
PEC das Praias: Flávio relatou o fim dos terrenos de marinha como bem da União
“Não estamos tratando ou tentando privatizar as praias, ou tentando impedir o acesso de ninguém.”
“Esse pode ser o maior fundo de preservação de praias do Brasil.”
“Eu acho que o governo está sendo burro de impedir ou de atrasar essa votação, porque vai aumentar a arrecadação da União.”
Ele é o relator da PEC 3/2022 na CCJ do Senado e deu parecer favorável. O texto revoga o inciso VII do art. 20 da Constituição, que põe os terrenos de marinha entre os bens da União, e os transfere a ocupantes, estados e municípios. Em julho de 2024 ele apresentou um segundo parecer, que ampliou de dois para cinco anos o prazo das transferências e deixou o ocupante livre para recusar o título.
Se a PEC voltar e for aprovada, a União deixa de ser dona da maior parte dos terrenos de marinha da costa. Quem critica o texto teme que isso facilite a especulação imobiliária e o fechamento de trechos da orla por empreendimentos, e enfraqueça a gestão pública diante de erosão e alta do nível do mar.
Anistia a Bolsonaro e ao 8 de Janeiro, “ainda na transição”
“Eu, como presidente da República, vou fazer, vou trabalhar pra que a anistia seja feita ainda na transição. [...] Ele foi julgado pelos seus inimigos.”
“Não existe meia anistia. [...] Não dá para anistiar a Débora do Batom sem anistiar Bolsonaro.”
Se o Congresso aprovar, quem tentou derrubar o resultado de uma eleição pode sair sem pena. Se não aprovar, Flávio disse que a alternativa é o indulto aos condenados do 8 de Janeiro.
“Último obstáculo” contra a ditadura, e uma democracia que “não é plena”
“O Bolsonaro era e continua sendo o último obstáculo para que este País não degringole de uma vez por todas em uma ditadura.”
“[...] fadiga da nossa democracia, que, na minha concepção, não é plena hoje em dia.”
Descrever as instituições de hoje como uma ditadura em curso serve de justificativa para mudá-las por maioria: anistia, STF, Constituição.
“Nunca vai ter um atestado”: a dúvida sobre as urnas
“Eu posso achar que não tem fraude, mas na real a gente nunca vai ter um atestado ali.”
“[Sobre fraude em 2022] Não aconteceu, mas podia ter acontecido.”
Um presidente que mantém a dúvida sobre as urnas pode minar a confiança nas próximas eleições, inclusive se perder uma delas.
“Mudar a Constituição e redemocratizar esse país”
“[...] mudar a Constituição e redemocratizar esse país.”
“Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena? Não.”
No dia seguinte (7/10), ele detalhou: reforma do Judiciário, maioridade penal aos 16, mudanças na reforma tributária e fim da reeleição, com “ponderação”.
A mesma frase abre espaço para emendas sobre o Judiciário. Com PSD e parte do MDB o bloco passa de 308.
Justiça
Supremo, segurança e penas
“Vou indicar cinco ministros”, e a ameaça a Moraes
“Vou indicar cinco ministros para o STF porque o Alexandre de Moraes vai cair.”
“O próprio Supremo vai dar a cabeça de Alexandre de Moraes na bandeja para o povo brasileiro.”
Nomear cinco ministros mudaria a maioria do Supremo, a corte que julga o próprio presidente e os parlamentares. É o caminho para um tribunal alinhado ao Planalto.
Maioridade penal de 18 para 16 anos, “por PEC”
“Eu sou a favor da redução da maioridade penal há bastante tempo, tem que ser feito por PEC.”
A idade da responsabilidade penal está no artigo 228 da Constituição e só muda por emenda.
Adolescentes de 16 anos passariam a responder como adultos, no sistema penal comum. Para quem defende, é resposta ao crime. Para críticos, é punir mais cedo sem reduzir a violência.
PCC e CV como “terroristas”: o debate sobre soberania e a lei
“[...] como terroristas, que é o que eles são.”
“[...] fizemos mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e Lula.”
Em 28/5/2026, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação de CV e PCC como organizações terroristas estrangeiras, com efeito a partir de 5/6. Antes, em 16/5, em Sorocaba, ele já dizia que classificaria as facções assim se eleito.
Críticos apontam que o rótulo de terrorismo pode abrir precedente para interferência estrangeira e embaralhar a tipificação penal de crimes comuns. É o argumento do governo federal, não consenso.
Soberania
EUA, Israel e política externa
Tarifa em jogo e uma carta de 86 páginas a Washington
“Ele errou de agradecer em relação às tarifas. [...] A decisão quem tomou foi o governo americano e não Eduardo Bolsonaro.”
Em 1º de julho, Flávio entregou uma carta de 86 páginas ao USTR, órgão comercial dos EUA, pedindo 180 dias de adiamento da tarifa extra de 25%. A investigação cobre Pix, plataformas, etanol e desmatamento. Segundo o jornal, ele disse ser preciso “entender a cabeça” de Washington antes de negociar.
Quando regulação interna (Pix, plataformas, ambiental) entra na mesa para aliviar uma tarifa, a soberania vira moeda de troca.
Pediu “pressão diplomática” dos EUA sobre as instituições brasileiras
“[...] observem as eleições do Brasil com enorme atenção.”
“Ele, a todo momento, lambe as botas da China e ataca pedra nos Estados Unidos. [...] tem que negociar com todo mundo, com Estados Unidos ou com China.”
No discurso do CPAC, defendeu que os EUA e o “mundo livre” apliquem “pressão diplomática” para que as instituições brasileiras funcionem. Disse não querer “interferência”.
Convidar um governo estrangeiro a pressionar as instituições do próprio país é o centro do que críticos chamam de entreguismo.
Embaixada em Jerusalém e “irmão de Israel”
“Em 2027, o Brasil não apenas voltará a ter embaixador em Israel, [...] dará o passo de transferir sua embaixada para a capital: Jerusalém.”
“E será também, com orgulho e sem o menor medo de dizer isso, irmão de Israel.”
Segundo as reportagens, ele também prometeu receber, no primeiro dia de governo, as credenciais de um novo embaixador israelense. Desde 2024 Brasil e Israel mantêm apenas encarregados de negócios.
Transferir a embaixada tende a custar o papel de interlocutor que o Brasil tem no mundo árabe e entre os países que não antecipam o status de Jerusalém, com reflexo em comércio e diplomacia.
A tesoura e a PEC antes da posse: cortar o quê?
“Temos 39 ministérios, podemos enxugar os ministérios.”
“[...] gastador e irresponsável.”
Ele exibiu uma tesoura na convenção do PL, em julho, ao lado de Javier Milei, e em 5/8/2026, no anúncio de Alfredo Gaspar como vice. Daniella Marques, coordenadora da proposta econômica, disse em 21/8, no Fórum LIDE, que ele enviaria ao Congresso uma PEC antes da posse para enxugar ministérios e cortar despesas, com 20 a 25 pastas.
Sem metas, valores nem lista do que será cortado, a pergunta que fica é quem paga a conta: o gasto de custeio da máquina ou despesas com benefícios, saúde e educação.
Suspender a reforma tributária por um ano para refazê-la
“Quando eu falo sobre suspender a regulamentação da reforma tributária é para dar tempo de fazer [...]”
“O que eu estou propondo é, sim, uma nova reforma tributária nos moldes que nós defendemos.”
“Nós fizemos emenda para que o IVA ficasse na casa dos 20%.”
Segundo o Portal da Reforma Tributária, ele disse que pretende suspender a reforma atual por um ano e criar regras para reduzir gradualmente a carga. Ele afirma que IBS e CBS somados chegarão a 26%; a matéria cita projeção do governo de cerca de 28%.
Pausar a transição no meio do caminho cria incerteza para empresas, estados e municípios, que já ajustam sistemas e arrecadação a um calendário em vigor.
Ele disse “Correios para começar”. A campanha diz que não haverá
“Os Correios têm que ser privatizados, para começar. [...] temos que partir para a privatização de outras empresas também que continuam ineficientes.”
“Não existirão privatizações de empresas.”
A contradição é o risco: o candidato defendeu vender estatais “para começar” e depois a campanha negou. Concessões, PPPs e venda de imóveis da União avançam por contrato, sem votação.
“Defender o nosso Pix”, mas propôs limitar sua integração
“Eu vou lá para os Estados Unidos defender o nosso Pix.”
Na carta ao USTR, Flávio propôs um compromisso legislativo para impedir que o Pix seja integrado a sistemas internacionais de liquidação “não ocidentais”.
Limitar o Pix por pedido de uma investigação estrangeira tira do Banco Central e do Congresso uma decisão pública, e põe o Pix na mesa da tarifa.
Os riscos econômicos, segundo o economista José Kobori
Duas entrevistas de José Kobori sustentam esta seção: ao Metrópoles (8/10/2026, 13min35s) e ao programa 20 Minutos, da Opera Mundi (28/8/2026). O que está em “Kobori afirma” é paráfrase do que ele disse, não citação. Previsões sobre um governo Flávio são avaliações dele, e os cruzamentos com falas e plano de Flávio são análise do PautaBR. A transcrição do Metrópoles é automática e pode ter erros de nomes e números.
Ajuste fiscal e privatizações
Alinhamento com os EUA e disputa com a China
Commodities, financeirização e concentração de renda
Trabalho, sindicatos e plataformas
Bolsa Família e incentivos às empresas
Instituições e concentração de poder
Choque externo
O que não usamos
- Os números sobre a Argentina e a pesquisa eleitoral citados no vídeo do Metrópoles, que ainda não têm fonte verificada.
- A ideia de congelamento de salários e aposentadorias “nas entrelinhas” do modelo defendido por uma integrante da campanha: não há proposta formal que a sustente.
O que a campanha responde
- Não privatizar Petrobras, BB e Caixa; “não existirão privatizações” (Adolfo Sachsida, 8/10).
- Manter 13º, aposentadoria, Farmácia Popular e Bolsa Família.
- Defender o Pix nos EUA e não usá-lo como moeda de troca.
- Reforma do Judiciário “não enfraquece” o STF.
- Fim da reeleição, com compromisso de não disputar um segundo mandato.
- “Respeito à Constituição” e “ponderação” (7/10); a assessoria diz que ele confia no sistema eleitoral.
- Combater crimes ambientais com fiscalização e respeitar a autonomia dos povos indígenas (Belém, 14/9, e Sinop, 22/4).
- Não fazer economia em cima de aposentado e manter o Bolsa Família (Canal Livre, 2/8, segundo a imprensa).
- Reduzir a carga tributária com uma “reforma negativa”, e não aumentar impostos (CNI, 22/6).
- Não privatizar as praias nem impedir o acesso, segundo ele sobre a PEC das Praias (CNN, 2/12/2024).
Para acompanhar até o dia 25
- A resposta do governo americano à carta de 1º de julho.
- Os primeiros projetos de anistia e indulto.
- A composição da CCJ e as presidências da Câmara e do Senado.
- Quem ocupa as vagas que o STF abrir.
- Se a PEC da maioridade penal entra na pauta.
- Se a PEC de corte de gastos e ministérios sai antes da posse, e o que ela inclui.
- O que muda na reforma tributária: pausa de um ano ou transição mantida.
- Se a licença por decurso de prazo e a política de demarcações viram ato ou projeto.
- Se a PEC das Praias volta à pauta da CCJ do Senado.
Os dois lados dependem do Congresso, e as bancadas só tomam posse em fevereiro de 2027. Para ver Lula e Flávio lado a lado, com pesquisas, planos e processos, abra o guia do 2º turno.
Social
Trabalho, renda, saúde e acesso
Jornada “flexível” no lugar do fim da 6×1
“Escolher a jornada” com pagamento por hora pode reduzir o salário de quem depende de renda fixa, e afasta a regra geral que protege o descanso.
Promete manter o Bolsa Família, mas já criticou o programa
Como deputado estadual na Alerj, em 2006, ele criticou o programa e o chamou de “estímulo” para casais terem mais filhos, segundo o jornal Estado de Minas. Em 2/8/2026, prometeu garantir o benefício.
A promessa é de manter, mas sem valor nem regra detalhados na cobertura que levantamos. O histórico de crítica pede acompanhamento do que virar lei.
Emenda para limitar a Lei de Cotas por renda, rejeitada em 2023
Ele apresentou emenda que restringiria as cotas nas federais a estudantes de baixa renda. Pediu preferência na votação, recebeu 24 votos e a emenda não avançou, segundo a BNews.
Reabrir a Lei de Cotas por critério só de renda pode reduzir o acesso de estudantes negros, indígenas e com deficiência, que o desenho atual protege expressamente.
Pisos de saúde e educação corrigidos só pela inflação: o que está em estudo
O plano propõe o programa “Brasil sem Fila”, uso da capacidade ociosa da rede privada pelo SUS, prontuário eletrônico único e telessaúde. Em 22/4/2026, o Correio Braziliense informou que a equipe econômica estudava corrigir os pisos de saúde e educação apenas pela inflação, “sem crescimento real”.
Se os pisos deixarem de crescer acima da inflação enquanto a população envelhece, o SUS teria de fazer mais com a mesma verba real, e a rede privada ocuparia mais espaço.