O etanol a 32% é uma vitória climática — mas para quem, exatamente?
O Brasil acaba de dar um passo real na descarbonização dos transportes. A questão é saber se os benefícios chegam a todo mundo ou ficam concentrados no topo da cadeia.

O Brasil acaba de ampliar o teor obrigatório de etanol anidro na gasolina de 27% para 32%. A medida, anunciada pelo governo federal, vai reduzir as importações de petróleo e, em tese, diminuir as emissões de CO₂ do setor de transportes — o segundo maior emissor de gases de efeito estufa no país. É um passo concreto, verificável e tecnicamente relevante. Mas como todo avanço que envolve energia, dinheiro e poder, vale a pena perguntar: quem ganha com isso?
Do ponto de vista técnico, a lógica é sólida. O etanol de cana-de-açúcar brasileiro tem um dos menores ciclos de emissões do mundo quando comparado à gasolina fóssil. Estudos do UNICAMP e da Embrapa já documentaram que, considerando todo o ciclo de vida — do plantio à queima —, o etanol de cana emite entre 70% e 90% menos CO₂ equivalente do que a gasolina convencional. Elevar o blend para 32% não é só simbólico: é uma redução mensurável de carbono nos escapamentos de milhões de carros que já circulam pelas ruas brasileiras, sem exigir troca de veículo ou nova infraestrutura.
O setor sucroenergético, claro, comemora. Usinas do Centro-Sul aumentam seu mercado cativo, preços tendem a se estabilizar para os produtores e o Brasil consolida uma posição única no tabuleiro global da bioenergia — num momento em que Europa e Estados Unidos ainda tentam escalar seus próprios programas de combustíveis renováveis. Para o balanço comercial, reduzir a dependência de petróleo importado também tem valor estratégico real, especialmente com o Oriente Médio novamente em tensão e o preço do barril sujeito a choques geopolíticos.
Mas há perguntas que o entusiasmo não deve apagar. A expansão do setor sucroalcooleiro no Brasil historicamente pressionou fronteiras agrícolas, competiu com culturas alimentares em certas regiões e manteve relações de trabalho que ainda merecem escrutínio. A concentração fundiária do setor é estrutural. E o benefício climático, embora real, chega de forma assimétrica: quem mais sofre com a crise do clima — populações periféricas, comunidades rurais, moradores de áreas de risco — raramente são os mesmos que lucram com a expansão do agronegócio energético.
Há ainda a dimensão tecnológica de longo prazo. O etanol de primeira geração, feito de cana, é eficiente, mas limitado em escala. O etanol celulósico — produzido a partir do bagaço e da palha, resíduos do próprio processo — poderia dobrar o aproveitamento energético por hectare sem ampliar plantio. O Brasil tem pesquisa nessa área, mas o investimento em segunda geração ainda é modesto diante do potencial.
Ampliar o etanol na gasolina é, sim, uma notícia boa para o clima. Mas política energética séria não se faz só com percentuais: faz-se com regulação fundiária, proteção trabalhista, investimento em P&D e distribuição justa dos ganhos. O futuro da bioenergia brasileira pode ser admirável — desde que não repita os vícios do passado fóssil com roupagem verde.
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